REDE SOCIAL, 30 dezembro 2024
REDE SOCIAL
Sai 2024 e entra 2025
1.
2025: Que não fiquemos à porta
As páginas que imagino, rasuradas pelo tempo que ainda
não chegou, continuam a narrar este anseio por uma Madeira que se redescobre e
se reinventa no limiar de uma nova era. O liberal que me habita, solitário nos
seus pensamentos, mas vasto nas suas aspirações, expande a sua visão para além
das rotas já traçadas.
No campo da política, este desejo traduz-se numa
governança transparente e responsável, onde cada euro investido seja um euro
que retorna aos madeirenses em forma de serviços, infraestruturas e
oportunidades. Anseia-se por uma gestão que se despoje dos vícios do
clientelismo e que seja, em essência, uma plataforma de diálogo constante entre
o cidadão e o Estado. Onde o debate político não se confine às paredes fechadas
das instituições, mas se espalhe pelas praças e pelas ruas, num diálogo aberto
e construtivo que acolhe todas as vozes.
Economicamente, almeja-se uma ilha que seja farol de
inovação e sustentabilidade. A agricultura, pilar de tantas gerações, deve
abraçar tecnologias que maximizem a produção sem comprometer o solo e a água,
tesouros tão preciosos nestas terras. O imprescindível turismo deve evoluir
para modelos mais sustentáveis e éticos, que valorizem a cultura e a natureza
madeirense sem as subjugar ao lucro desmedido.
Numa textura que só a verdade pode entrelaçar, há que
gritar, ainda que com a pouca voz que nos resta, suave e esmagada pelos tempos,
que a Madeira deve ser um lugar onde os que aqui têm o seu chão, o seu tecto, o
seu berço, usufruam do mesmo nível de vida daqueles que nos visitam. Os nossos,
os que aqui respiram o dia e suportam a noite, devem caminhar por ruas que lhes
prometam o mesmo horizonte de possibilidades que encantam os olhos estranhos
que nos espreitam, temporários e fugazes. Não mais a distância entre o servir e
o ser servido, entre o morador e o hóspede, pois todos, sob o mesmo céu, sobre
a mesma terra, devem tocar a mesma promessa de um amanhã justo. É uma exigência
da alma, um clamor das raízes, que não se apazigua com menos do que a justiça
de uma equidade palpável.
A liberalização das diferentes actividades deve também
ser acompanhada de um forte compromisso com a inclusão social. É imperativo que
a prosperidade gerada não se acumule nas mãos de poucos, mas que se disperse
como a suave brisa marinha, alcançando todos os cantos e todas as pessoas.
Ambientalmente, este futuro anseia por uma Madeira que
não só preserva as suas belezas naturais, mas que também lidera pelo exemplo em
práticas de conservação e sustentabilidade. Que se torne um exemplo na gestão
de recursos hídricos, na proteção das suas florestas e na promoção de energias
renováveis. Que cada decisão considerada tenha como parâmetro não só o impacto
imediato, mas também as gerações futuras.
Culturalmente, deseja-se uma revitalização das artes e
das tradições, um reencontro com a história e a identidade do arquipélago. Que
cada festa, cada evento, cada expressão artística seja uma celebração da
Madeira e para a Madeira, envolvendo não apenas os residentes, mas atraindo os
olhares de todos os que nos visitam. Que a cultura seja a língua universal
através da qual a ilha se comunica e se afirma.
Estas páginas, ainda por escrever, aguardam as mãos que
as moldarão. Este liberal, com sua visão e a sua fraca, mas persistente voz,
apenas sugere um esboço, um prelúdio de um futuro possível, esperando que
muitos outros se juntem na sinfonia de construir uma Madeira não apenas
renovada, mas renascida nas promessas de 2025.
Que tenhamos todos um bom ano.
2.
O Triunfo do Nada
“Brain rot”, segundo o Oxford Dictionary, é a palavra do
ano. E com razão. O apodrecimento cerebral tornou-se o estado natural da nossa
gloriosa civilização. Veja-se: uma geração inteira, orgulhosamente ignorante,
dedica os seus dias a deslizar o dedo sobre ecrãs como macacos fascinados por
uma banana virtual. O conteúdo? Vídeos de dez segundos, piadas recicladas e
danças coreografadas por adolescentes que provavelmente não sabem localizar a
Europa no mapa. Eis o zeitgeist: a glorificação do vazio, a celebração da
mediocridade.
E o que fazem os adultos, supostamente guardiões da
sanidade cultural? Rendem-se. Participam. Encorajam. Partilham “stories” e
publicam “reels” enquanto fingem que a vida digital é uma extensão legítima da
sua existência. Pior ainda, chamam a isto “progresso”. Progresso. Nada mostra “avanço
civilizacional” como substituir Padre António Vieira por vídeos de gatinhos.
Mas sejamos justos: a idiotice nunca foi tão inclusiva.
Onde antes a estupidez era uma prerrogativa da aristocracia decadente, agora é
um direito inalienável de todos. Democratizámos a cretinice. O “brain rot” é o
nosso maior triunfo colectivo, um movimento global que une ricos e pobres,
jovens e velhos, todos juntos no altar do algoritmo.
E nós, neste país à beira-mar plantado e neste calhau no
meio do oceano, claro, não ficamos atrás. O país que outrora produziu Camões,
Pessoa e outros génios que hoje ninguém lê, abraçou o apodrecimento cerebral
com o entusiasmo servil de sempre. Basta entrar numa escola para constatar o
desastre: alunos com dificuldades várias devido ao ensino massificado,
professores que preferem “projectos criativos” a ensinar coisas tão arcaicas
como História ou Matemática. E porquê? Porque é difícil, porque pensar cansa.
Melhor é pôr os miúdos a fazer um TikTok educativo sobre a Revolução Francesa.
E os políticos? Esses não têm nenhum interesse em
inverter esta catástrofe. Quanto mais estúpida a população, mais fácil é
mantê-la quieta e obediente. Se o povo está entretido a discutir “reality shows”
e “influencers”, não repara que os seus impostos desaparecem misteriosamente ou
que as infraestruturas se desfazem como um velho barracão ao vento.
A solução? Tratar o “brain rot”. Ensinar às pessoas o
valor da leitura, da introspecção, do silêncio. Mas para quê? Para elas
continuarem a ignorar? Para os pais comprarem um livro ao filho enquanto lhe
atiram o “tablet” para as mãos? Por favor. O cérebro colectivo está podre e
ninguém quer saber. Aliás, a maioria nem percebeu porque não lhe sente o
cheiro.
Então, viva o “brain rot”!
Viva a irrelevância, a futilidade, o triunfo do nada
sobre tudo. Não há problema: sempre que a realidade for dura, haverá um vídeo
de dança idiota para nos salvar.
E não, não sou melhor do que ninguém e também sou
responsável.
3.
A Preguiça Intelectual
A obsessão contemporânea por só ler aquilo com que se
concorda — ou, pior ainda, aquilo que reforça as opiniões já adquiridas — é uma
forma de preguiça intelectual que me desilude. Não é apenas sintoma de um tempo
em que as pessoas se refugiam em bolhas, mas também de uma alarmante falta de
coragem para confrontar as próprias ideias com o contraditório.
Sempre fiz questão de ler mais do que me incomoda ou
desafia do que aquilo que me conforta, não consigo compreender esta rendição ao
conforto das certezas. O mundo não é uma colecção de verdades absolutas ao
gosto de cada um. Ler — e aqui falo de ler genuinamente — exige um confronto,
uma disposição para o embate, para o desconforto de se reconhecer, às vezes,
errado ou, no mínimo, insuficiente.
Ler apenas o que agrada é, no fundo, um acto de cobardia.
É como olhar para um espelho todos os dias e entender que o reflexo é a
verdade. Quem apenas lê para reforçar o que já pensa não lê verdadeiramente,
limita-se a consumir uma projecção narcisista. Sempre procurei nas palavras dos
outros, sobretudo naquelas com que discordo, um desafio. Uma ideia nova. Uma
irritação, até. Porque só assim se cresce, se pensa e, no limite, se vive.
O que mais me entristece, porém, é perceber que até
amigos meus recusam a discordância e o desafio que isso representa. Vivem
enclausurados num conforto intelectual que não só os priva do prazer de
descobrir, como os empobrece espiritualmente. A discordância não é um ataque,
mas uma oportunidade de diálogo, de crescimento mútuo, de respeito. Contudo,
muitos preferem a segurança entediante das ideias inquestionáveis. E isso,
admito, deixa-me desiludido.
O mundo já está cheio de ruído e de opiniões iguais. Se
alguém quer se limitar ao conforto dessas repetições, que o faça. Mas,
francamente, não espere respeito de quem, como eu, entende a leitura — e a vida
— como uma forma de liberdade.
E a liberdade, meus amigos, nunca foi feita para ser
confortável.
Dezembro 2024
Nuno Morna

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