Centro não é neutralidade

A ideia de que o centro político é uma espécie de miradouro sereno, onde almas bem-intencionadas se sentam a contemplar a paisagem ideológica, com igual desprezo pela direita e pela esquerda, é uma fantasia encantadora. Uma visão de postal, quase idílica, que só poderia nascer na cabeça de quem nunca teve de sujar as mãos na lama pegajosa da política real. O centro político, dizem os ingénuos, é o território das boas maneiras, do equilíbrio perfeito, da sensatez sem mácula. Uma espécie de Igreja da Sé da vida pública, onde não há extremos, nem gritos, nem indignações. A tranquilidade da civilidade. Um disparate monumental.

Na verdade, o centro político não é neutro, nem deveria ser. A neutralidade, como bem sabemos, é o último refúgio dos fracos, dos acomodados e dos que têm medo de decidir. Aqueles que falam de equidistância entre a esquerda e a direita como se fosse uma virtude são os mesmos que, perante um incêndio, hesitariam entre salvar a casa ou as pessoas. No mundo real, o centro não é um espaço vazio onde tudo é possível e nada é decidido. É um campo de batalha, onde quem lá se encontra tem de lutar, e lutar muito, para não ser arrastado pelos gritos de uma barricada ou de outra. O centro exige escolhas, coragem e, sobretudo, nervos de aço. Não é um refúgio para diplomatas de pacotilha ou moralistas de tertúlia.

O centro não é — e isto é difícil para os ingénuos perceberem — um compromisso constante ou um meio-termo preguiçoso. É, pelo contrário, uma posição activa e exigente, que recusa os extremos, não por cobardia, mas porque os extremos, invariavelmente, ou nos levam à miséria, ou ao desastre. A esquerda, com o seu eterno sonho de uma sociedade perfeita, pronta a esmagar tudo e todos em nome do progresso, é tão perigosa quanto a direita, sempre pronta a arremeter com as suas fantasias de autoridade e pureza. O centro, pelo menos o verdadeiro, não tem paciência para utopias nem para nostalgias. Move-se no terreno incerto da realidade, onde o que importa é resolver problemas, não alimentá-los com discursos grandiosos ou promessas impossíveis.

E, no entanto, há quem insista em transformar o centro numa pastelaria ideológica, onde cada cliente pode pedir um pouco de direita no recheio e uma pitada de esquerda na cobertura, para que todos fiquem contentes. Essa ideia de que o centro é uma conciliação permanente, uma dança de salão entre extremos, só serve para criar a ilusão de que se pode agradar a todos, o que, como sabemos, é a receita mais rápida para desagradar a toda a gente. A política, quando é séria, não é um concurso de simpatia nem uma mesa de negociações para agradar a facções. É um jogo de força, onde quem não escolhe, perde.

O centro, historicamente, tem sido o bastião contra os delírios de um lado e de outro. Quando a esquerda se perde em populismos lunáticos ou em revoluções de sofá, é o centro que a puxa para a realidade. Quando a direita se embriaga de autoritarismo, populismo e exclusão, é o centro que mantém os alicerces democráticos intactos. Mas que ninguém se engane: ser do centro é, muitas vezes, ser odiado por todos. É o preço a pagar por não alinhar com os devotos de uma igreja ou de outra. É ter de ouvir os gritos de ambos os lados e, ainda assim, resistir.

Ser do centro, no fundo, é um exercício de sobrevivência num campo minado de extremistas histéricos. Não é cómodo, nem tranquilo, nem especialmente popular. Mas, entre as utopias destrutivas da esquerda e os delírios reaccionários da direita, é, frequentemente, a única coisa que impede o colapso. Por isso, poupem-nos a conversa melíflua de equidistâncias e neutralidades. O centro, quando é sério, não é para os fracos de espírito ou para os que se recusam a sujar as mãos. É para quem entende que a política é escolha, acção e, acima de tudo, confronto. E, claro, para quem não tem medo de ser detestado por isso.

Dezembro 2024

Nuno Morna



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