"Do Que Falamos Quando Falamos de Direita", de Jaime Nogueira Pinto

Gosto de Natais que me tragam livros. E a prima Sara fez-me esse gosto.

Jaime Nogueira Pinto, um dos mais fascinantes e conturbados pensadores da direita portuguesa, surge neste "Do Que Falamos Quando Falamos de Direita" como quem se senta à nossa frente num gabinete antigo, cheio de sombras, um tom meio conspiratório e resignado, uma espécie de premonição que nos conduz pelos labirintos da história política. É um livro que, mais do que explicar, parece querer justificar, não com a urgência dos tempos modernos, mas com a paciência com que só alguns ensinam, aquilo a que chamamos direita, esse termo tão gasto, tão maltratado, tão engolido pela espuma dos dias.

O autor, quase como quem segura uma bengala invisível, começa com a Revolução Francesa, essa data fundadora, como um velho alfarrabista a folhear páginas poeirentas para nos recordar de onde vêm estas coisas todas, estas palavras que dizemos como se as compreendêssemos. Direita e esquerda, dois lados de uma sala onde os homens discutiam o futuro enquanto lá fora reinava uma espécie de indiferença.

Mas o livro não se contenta com a história. Passa aos dias de hoje, à confusão de um tempo em que os termos já não querem dizer o que diziam, em que populistas, nacionalistas e liberais se amontoam debaixo de um mesmo tecto, a olhar uns para os outros como primos afastados numa ceia de Natal. O autor, quase sempre lúcido, oferece esta visão caleidoscópica da direita contemporânea, sem deixar de a defender, claro, mas com a gravidade de quem sabe que o mundo é uma batalha perdida.

O que impressiona no livro, porém, não é tanto a argumentação, que é clara e sólida como se esperaria de alguém com o currículo do autor. É o tom. Há ali uma nostalgia qualquer, uma espécie de saudade do que foi e não volta a ser, um certo desconforto com o presente. Por vezes, é como ouvir um velho general a contar as suas campanhas, ciente de que o tempo lhe roubou o exército. Por outras, é quase uma oração, não a Deus, mas a uma ideia que o mundo insiste em desfigurar.

É claro que, sendo Jaime Nogueira Pinto quem é, o livro não se escapa ao viés ideológico. Há uma espécie de piedade subjacente à análise que nos lembra que o autor não veio apenas explicar, veio também tentar salvar alguma coisa, por muito pequena que seja, do naufrágio. E isso pode ser visto como uma fraqueza, como um gesto que trai a imparcialidade, mas é também o que dá ao livro a sua alma. Porque este não é apenas um ensaio, é, no fundo, um lamento.

No entanto, e talvez por isso mesmo, "Do Que Falamos Quando Falamos de Direita" é uma leitura fascinante. Não porque esclareça tudo, mas porque nos obriga a pensar, a voltar atrás, a repensar o que julgávamos saber. Não é um livro que convença quem está do outro lado da barricada, mas também não é esse o objectivo. Jaime Nogueira Pinto não quer converter ninguém, quer apenas falar, como um velho que conta histórias à lareira, enquanto o vento uiva lá fora.

Dezembro 2024

Nuno Morna



Comentários

Mensagens populares deste blogue

Silêncio Frio: O Funeral Turístico do Ribeiro

O Dia em que o JPP se Demitiu de Santa Cruz.

O cadáver adiado que se recusa a sair de cena.