O Cansaço que Mata a Democracia
Os portugueses estão fartos de eleições. Fartos como se fartam das filas intermináveis nas repartições públicas, das avarias do multibanco quando mais precisam dele, do burocrata de óculos grossos que os manda voltar no dia seguinte porque falta um carimbo. É um cansaço surdo, acumulado, que se instala nos ossos como uma humidade antiga, como uma neblina que não levanta, como uma mágoa que já nem dói de tanto doer. Não é um cansaço de agora, não é um cansaço de ontem – é um cansaço de sempre, um fardo que os portugueses carregam às costas sem saberem muito bem quando começaram a carregá-lo. E no meio disto tudo, as eleições surgem como mais um incómodo, mais um daqueles deveres cívicos que se cumprem sem entusiasmo, como um parente distante que aparece no Natal e de quem ninguém gosta muito, mas que é preciso aturar porque a decência assim o exige.
E, no entanto, lá vão, lá vão sempre, lá pegam no boletim de voto, hesitam entre um nome e outro, recordam vagamente as promessas que ouviram pela televisão, sentem o peso da inutilidade no gesto que fazem. Sabem que nada vai mudar, ou se mudar será apenas na superfície, nos nomes que enchem os jornais, no tom das mentiras que se dizem. Um governo cai, outro se ergue, e tudo continua na mesma: a papelada inútil, os corredores sujos dos hospitais, os salários que nunca chegam ao fim do mês, os mesmos rostos na televisão a discutir as mesmas coisas como se fossem novas.
Mas há um perigo maior do que o simples cansaço. O cansaço, por si só, não destrói nada. O cansaço, muitas vezes, até fortalece, obriga a resistir, a esperar, a procurar um intervalo de sol no meio da tempestade. O perigo verdadeiro vem quando esse cansaço se transforma em indiferença. Porque quando se está cansado, ainda se sente, mas quando já não se sente nada, quando já não se acredita em nada, quando a democracia passa a ser apenas mais um ruído de fundo, então está tudo perdido. A democracia não morre num golpe de Estado, não desaparece numa noite de conspiração e fumo, morre lentamente, esvazia-se de sentido, torna-se irrelevante até o dia em que alguém se apercebe de que já não está cá.
Os portugueses estão fartos de eleições, mas um dia podem fartar-se da democracia. Primeiro deixam de votar. Depois deixam de ouvir. Depois deixam de se importar. E um país que já não se importa é um país pronto para tudo: para o populismo, para o autoritarismo, para a promessa falsa de que alguém pode pôr ordem no caos sem perguntar nada a ninguém.
E um dia, um dia qualquer, depois de uma manhã igual a tantas outras, alguém abrirá os olhos e perceberá que já não tem escolha, que a democracia foi sendo levada aos bocadinhos, como um velho casarão que se vai desfazendo aos poucos até não restar mais do que ruínas. Mas aí, como sempre acontece, já será tarde demais.
Março 2025
Nuno Morna

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