Enquanto o mundo arde, a campanha não ata sem desata.

[por cá continuamos a discutir caganitas]

Enquanto o mundo se desfaz, não devagar, não com lentidão, mas com o barulho surdo de um prato de sopa que escorrega das mãos do empregado e se esborracha no chão de pedra, nós por cá entretidos a discutir a nódoa, a caganita. A nódoa, entenda-se, como metáfora da política. O nó do nó, a substância espessa das campanhas: boatos, insultos pequenos, discursos repetidos com vozes de megafone cansado, o meu é melhor do que o teu, o meu cartaz é maior, o meu jingle tem mais batida, como se a democracia fosse uma espécie de concurso de tambores. E o mundo, esse mundo de lá fora que já não é de fora porque entrou-nos pela porta dentro, a desabar. Os Estados Unidos cambaleiam entre um cadáver ambulante e um fascista de verniz dourado. A Ucrânia está estraçalhada e ninguém quer saber. A Faixa de Gaza resume-se a escombros. A Rússia abana a Europa com o ar jovial de um alcoólico imprevisível. A China estica os braços sobre o Pacífico. E, como se não bastasse, uma guerra iminente entre a Índia e o Paquistão, nuclear e absurda, começa a fervilhar sob os pés do mundo como se fosse um motor prestes a gripar.

E nós, aqui, ao espelho. A discutir as rugas. A procurar cabelo em casca de ovo. A compor o cabelo antes da fotografia. A fingir que ainda temos tempo, que ainda temos soberania, que ainda temos qualquer coisa de nosso. Há qualquer coisa de trágico nisto tudo, esta ilusão de que os assuntos da paróquia importam quando lá fora as igrejas ardem. Os partidos discutem ninharias como se o destino do país se decidisse em assembleias de condomínio. Não se fala de comércio internacional, nem de tarifas, nem de novas cadeias logísticas, nem de inflação, nem de nada. Fala-se de birras. Fala-se de mal-entendidos. Fala-se de ressentimentos adolescentes entre pessoas que nunca cresceram, mas fingem muito bem.

É uma campanha de sombras chinesas, de bonecos projectados na parede por gente sem coragem de apagar a luz. Um teatro provinciano com actores embriagados e público a dormir. Lá fora, as grandes potências preparam-se para a guerra. A guerra económica, a guerra tecnológica, a guerra de verdade com soldados e tanques e cadáveres empilhados como lenha. A Europa, apanhada entre a dependência e a cobardia, arma-se às pressas, constrói exércitos de papel, fala de autonomia estratégica com a mesma convicção com que se fala da dieta mediterrânica. E nós, que não somos a Europa, nem sequer periferia, somos um rodapé. Um rodapé que ainda por cima quer ser título.

E depois há a aproximação do Trump ao Putin, não é um detalhe, não é uma excentricidade, é uma mudança de paradigma. Um regresso à velha política do pacto secreto, do mapa dividido a régua, da esfera de influência desenhada por homens em salas fechadas. Quem não se posicionar agora será posicionado pelos outros. Seremos designados. Classificados. Subordinados. E ninguém, ninguém, parece disposto a dizer isto em voz alta. Continuamos a acreditar que somos importantes. Que temos voto na matéria. Que somos alguma coisa que não uma nota de rodapé de um relatório da Comissão Europeia.

Não temos visão, não temos plano, não temos sequer instinto de sobrevivência. Vivemos num colete de forças feito de funcionários, de assessores, de gabinetes, de decretos, de fundos comunitários que pagam tudo menos o que importa. Não sabemos o que é liberdade porque confundimo-la com regalias. E não sabemos o que é responsabilidade porque passamos a vida a pedir desculpa por existir.

Como sair disto? Com reformas a sério. Um acto de coragem, ou loucura, ou fé. Um país que rasgue a pele morta do Estado e se reconstrua a partir de dentro. Um país que perceba que o mundo mudou. Que não há mais espaço para a mediocridade. Que a liberdade não é um “slogan”. Que a economia não é uma vaca a ser ordenhada. Que a soberania não é um discurso de cerimónia com hino no fim.

E é por isso que não serão os spinumvivas desta vida, os que vendem vento em embalagens de celofane, que moldarão o futuro. Porque o futuro não se molda com truques. O futuro não se escreve sem convicção. O futuro não tem logótipo. O futuro pertence aos que pensam. Aos que agem. Aos que enfrentam.

E, sobretudo, aos que têm coragem de dizer: isto acabou. Isto assim não vai mais. E há que começar de novo. Mesmo que custe. Mesmo que doa. Mesmo que seja tarde.

Maio 2025

Nuno Morna



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