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O País em Pré-Campanha e a Política em Pré-Coma

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A pré-campanha para as legislativas de 2025 está a ser, como era de esperar, um espectáculo deprimente. Tudo o que nela se passa já foi visto, já foi dito, já foi prometido, já foi desmentido, já foi esquecido. Não há novidade, não há surpresa, não há sequer um leve sobressalto de inteligência ou de cinismo eficaz. Há apenas uma espécie de coreografia decrépita, em que os partidos fingem que falam ao país, os candidatos fingem que representam qualquer coisa parecida com uma ideia, e o país, esse cadáver político que respira por hábito, finge que escuta. O que estamos a viver não é política: é o simulacro burocrático de uma democracia que já não acredita em si própria. Pode dizer-se que esta é uma “pré-campanha híbrida”, o que na linguagem dos modernos quer dizer que os candidatos distribuem promessas tanto no Instagram como no mercado da Chamusca, ou no do Santo. É um híbrido sem convicção, sem substância, sem qualquer estratégia perceptível. Os partidos adaptaram-se às redes sociais c...

Serviço Regional de Saúde: os Corredores da Vergonha.

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As fotografias são de 3ª. feira. 3ª. feira. E não adianta fingir que o tempo, por se afastar três dias, transforma a vergonha em normalidade, como se a distância de quarenta e oito horas apagasse a tragédia, como se o empurrão da memória arrumasse as pessoas como os armários onde metemos os lençóis de hospital que já não servem. Três dezenas de doentes, trinta corpos em macas, trinta ausências de quarto, de cama, de dignidade, de tudo. Espalhados pelos corredores do Nélio Mendonça como pacotes devolvidos à procedência por uma transportadora cansada. Uns gemem baixinho, outros limitam-se a estar, a desfalecer deitados na vertical, com os olhos a pedir qualquer coisa que não sabem já nomear, talvez só silêncio, talvez só fim. E o pessoal a aguentar. A aguentar como se a urgência fosse uma guerra e eles soldados de infantaria lançados para um mato que não conhecem, sem mapa, sem ordens, com a farda molhada de suor e desespero. A fazer das tripas coração. Literalmente. As tripas, o coração...

O Perigo da Natureza Plebiscitária de Algumas Eleições

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(ou a ilusão democrática como biombo da tirania emocional) Li, num fim de tarde da semana passada, num post de um bom amigo, desses que envelhecem connosco como certas dores que deixámos de saber nomear, onde ele afirmava, com a convicção de quem já não espera que o escutem, que as últimas eleições na Madeira haviam sido, mais do que eleição, um plebiscito. E eram-no, de facto. Um plebiscito no sentido exacto da palavra, aquele que cheira a carne votante, a multidões que já não sabem por que votam, apenas que devem, que têm de, que se não votarem nele o mundo acaba, ou a freguesia, ou o lugar de estacionamento do filho na junta. A democracia, dizia-se antes, era esse rumor de vozes desencontradas que se toleravam porque ainda havia tempo para tolerar. Agora não. Agora é outra coisa. Uma encenação sem contraditório, uma peça mal escrita em que os actores entram em palco já com a salva de palmas preparada no fundo da urna. Uma democracia com adereços de democracia, como um jantar de gal...

Educação: as coisas, as coisas todas, e o pensamento das coisas.

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[in REDE SOCIAL, DNotícias de 07.04.2025 O miúdo sentava-se no fundo da sala, o segundo da fila encostado à janela, que era a única coisa que lhe dava sol naquele edifício que cheirava a vomitado velho e giz, a professora com hálito de pastilha de mentol a repetir as mesmas frases de sempre, os olhos dela semicerrados como se estivesse permanentemente a tentar ver através de uma cortina de fumo, a aula de Ciências, ou talvez História, ou Filosofia, mas isso não interessa porque o que se ensina é sempre o mesmo, o mesmo, o mesmo, como se os professores fossem robôs de carne com manuais no lugar do cérebro e as palavras entrassem na cabeça dos alunos com a delicadeza de um tijolo arremessado por uma janela. Ensinar, diziam. Ensinar o quê? As coisas. Sempre as coisas. A Revolução Francesa em três pontos, as camadas da Terra, o número atómico do cloro, a ordem dos reis de Portugal como se Portugal tivesse alguma vez sido um país com rei que importasse mais do que o cheiro do mar em Setembr...

Funchal: o Marketing da Insignificância.

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Andam aí uns cartazes pelo Funchal a emular a velha táctica governamental de encher os olhos com milhões, para assim se disfarçar que falam de tostões. É uma estratégia com barbas que já não é usada em lado nenhum, a não ser nesta terra de cegos. Não há, como bem sabemos, ridículo que mate entre nós. E no Funchal, ao que parece, mata ainda menos. A câmara, com pompa, circunstância e auto-convencimento, espalhou uns cartazes a dizer que a cidade “devolve 100% do IRS municipal”. A sério, é verdade que o devolve. Um cartaz berrante, cheio de setas e cores, como se estivéssemos todos na escola primária e precisássemos de incentivos visuais para perceber a bondade do gesto. “23,5 milhões!”, em 4 anos, dizem. Em letras gordas, em tons tropicais, como se estivessem a anunciar o jackpot do Euromilhões. Vamos a contas, que é coisa que políticos raramente fazem e menos ainda querem que se faça: 23,5 milhões divididos por 104 mil almas funchalenses dá qualquer coisa como 56 euros por ano. Quatro...

A Cartilha do Conformismo

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A política, como toda a gente mais ou menos decente sabe, não é feita de ideias, nem sequer de opiniões. É feita de carreiras. Carreiras longas, cautelosas, tediosamente previsíveis, que se constroem com uma habilidade sub-reptícia para não incomodar ninguém com poder, e com uma vocação sincera, quase religiosa, para a subserviência. Pensar, isto é, pensar por conta própria, não faz parte do currículo. Pelo contrário. Pensar é perigoso. Pensar desvia. Pensar perturba a ordem do rebanho. As direcções partidárias, independentemente da sigla ou da ideologia que fingem representar, são hoje aquilo que sempre foram: clubes fechados, compostos por indivíduos que se dedicaram, desde tenra idade, ao cultivo meticuloso do servilismo. E servilismo é, no fundo, o único talento que verdadeiramente conta. Quem pensa fora da caixa - expressão aliás idiota, importada de algum seminário de auto-ajuda empresarial - não só não é bem-vindo como é alvo de uma espécie de profilaxia interna, silenciosa mas ...

O Silêncio da Liberdade

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Sou, sim, ideologicamente consistente, ou digo que sou, que já é um tipo de consistência, como os bêbedos que juram estar sóbrios com a mão no coração e os olhos a flutuar, porque no fundo sabem que se não disserem isso a si próprios caem, e eu também, se não acreditar que os princípios valem alguma coisa, que não são apenas o verniz com que se disfarça a sobrevivência, caio, e não é uma queda literária, é uma queda concreta, de cara no chão, nos joelhos, nas mãos que já não seguram nada, nem a ideia que se tem de si próprio, e tudo começa aí, nesse fingimento que se torna hábito e depois convicção, e pronto, ficamos liberais como quem se declara doente crónico: sabe-se que se tem aquilo, aprende-se a viver com aquilo, e um dia começa-se a defender aquilo como se fosse um dom, um destino, uma escolha feita por amor à liberdade e não por cansaço do contrário. Liberal, sim, claro, sempre fui, talvez por medo do que vem com os outros nomes, com as palavras em série, com os planos a cinco ...