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Eu, Parvo me Confesso.

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Sempre que olho para a situação política da Madeira, esta espécie de tragicomédia sem catarse, esta pantomina repetida com a mesma precisão dos relógios de parede das repartições públicas, onde ninguém se dá ao incómodo de acertar o tempo porque o tempo deixou de importar, dou por mim a hesitar entre o vómito e o riso, entre o exílio mental e o insulto baixinho, sussurrado para dentro, de quem já perdeu a esperança, mas ainda não perdeu o tique de querer que as coisas façam sentido. E quando, na solidão do meu espelho, ou do café quase vazio de manhã, ou da varanda onde oiço a ilha ressonar sob o peso da apatia, quando nessa solidão me pergunto o que me leva a acreditar que ainda vale a pena, só encontro uma resposta possível: sou parvo. Um parvo sem redenção. Um parvo sem remédio. Eu, parvo me confesso. Eu, parvo me confesso. Porque ainda me dou ao trabalho de ler os programas eleitorais com a mesma atenção com que se lê uma carta de amor, e leio neles apenas a secura burocrática do e...

A Ilha Sem Contingência.

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[Quando o Governo admite que não sabe o que fazer, e acha isso normal] O homem disse, com aquele ar de quem acabou de deixar cair a última fatia de bolo no tapete, “não temos nenhum plano [de contingência] para responder ao cancelamento de 40 voos” , e ficou a olhar para nós como quem pede desculpa por ter sido apanhado em flagrante a existir. Disse-o com uma paz que doía. Como se tivesse anunciado que o cão fugira. Ou que alguém morrera e ninguém se tinha apercebido. Disse-o com uma espécie de ausência e desespero de quem, a meio da noite, sentado à beira da cama, com as mãos entrelaçadas no colo e o olhar num ponto qualquer que nunca conseguiu ver. Não temos plano, repeti eu para dentro, como se as palavras fossem um eco numa casa sem móveis, e sem ninguém, e sem memória sequer de ter tido gente dentro. Na Madeira, que é uma ilha e não uma metáfora, apesar de tanta coisa pedir para o ser, na Madeira, dizia eu, não há plano. Não há plano para o aeroporto, não há plano para o vento, nã...

A Editora que Falta e a Ilha que Espera (ou o que se escreve quando já não se espera nada).

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[Porque o livro é só o começo e a cultura é uma cadeia inteira, não um favor ocasional] A Madeira precisa de uma editora. Digo-o bem alto. Mas talvez não chegue dizê-lo. Talvez seja preciso explicar. Porque o que se joga aqui não é apenas o nascimento de mais um logotipo com aspirações tipográficas e promessas de publicações trimestrais que morrem ao segundo número. O que se joga aqui é o princípio de uma economia cultural feita com a cabeça, com as mãos e com o coração. Uma verdadeira indústria do livro, com tudo o que isso implica. E isso implica muito mais do que um escritor e um título. Implica emprego, circulação, exigência, concorrência, investimento, comunidade. Implica, em resumo, movimento. E não o movimento burocrático das cadeiras giratórias nos gabinetes públicos, mas o movimento verdadeiro, aquele que alimenta a vida à volta de uma ideia. Uma editora a sério não é só um editor e um autor. É um organismo completo. É, por definição, um projecto colectivo. Quando nasce uma e...

Empresas como espelhos embaciados.

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[Quatro milhões para se dizer que se fez. Meio cêntimo por dia para calar a vergonha] O programa CRIEE, disseram com a solenidade de quem anuncia a descoberta do mar ou o nascimento de uma ilha nova ao largo da Ponta de São Lourenço, criou 570 empresas e 959 postos de trabalho desde 2015, e eu a imaginar os homens das fotografias com os papéis na mão e os olhos semicerrados do costume, como se tivessem acabado de inaugurar a liberdade ou pelo menos uma estrada, e por baixo os sorrisos de catálogo institucional que se repetem há tantos anos que parecem já vir colados às caras como aqueles óculos que os velhos não tiram nem para dormir. Cinco centenas e setenta de empresas, disseram, como se fosse coisa que tivesse peso ou substância, cinquenta e quatro por ano, uma por semana, uma por cada sete dias que passam sem que ninguém se lembre de perguntar o que foi feito das que vieram antes, das outras, das que já não estão, das que nunca chegaram a estar, das que nasceram para morrer no temp...

O candidato de Schrödinger.

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[Entre o cartaz e o caixão, uma ETAR e um talvez] O PSD-M, sempre criativo na arte de não decidir ou de decidir mal, acaba de apresentar ao Funchal, e, por extensão, à Madeira inteira, uma nova categoria da zoologia política: o candidato de Schrödinger. Aquele que é e não é ao mesmo tempo. Que está numa lista, mas fora dela. Que concede entrevistas, mas desmente a própria existência eleitoral. Um candidato que respira, fala, aparece na imprensa, mas jura que talvez esteja morto antes do primeiro panfleto. José Luís Nunes é um médico de respeito e respeitável, figura pública com alguma compostura, alguém que se deu ao trabalho de preservar a seriedade da vida pública como quem limpa as janelas de uma casa abandonada. E, no entanto, aqui está ele, sujeito à humilhação calculada de uma pré-candidatura sem convicção, feita à imagem do partido que o rodeia: desfeito, hesitante, mais preocupado com arranjos internos do que com qualquer ideia de cidade, projecto ou comunidade. O cenário escol...

Demagogia, ou a arte de nos servirem sempre o mesmo prato requentado.

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Aqui há uns dias, numa daquelas tardes mansas de sábado, em que o tempo escorre devagar e a televisão serve de companhia mais por hábito do que por interesse. Andava eu a fazer zapping, nesse gesto mecânico de quem procura qualquer coisa que o distraia sem pedir esforço, quando encalhei no canal V+, que passava concertos do FNAC LIVE. Saudosista que sou, e cada vez mais, confesso, fiquei por ali, preso ao ecrã, ao som de Lena D’Água. Já perto do final, entre o brilho discreto da banda e a elegância crua da voz, surgiu “Demagogia”, canção de outros tempos que, como certas dores, não passa. Cantou-a com aquela firmeza doce de quem sabe que ainda dói, e encantou. De vez em quando passa uma canção de 1982 que parece escrita ontem, ou amanhã, ou depois de amanhã, e talvez isso diga tudo sobre este país com fungos na memória, onde os discursos mudam de cor como os anúncios e os políticos aparecem nas ruas como formigas em tempo de pão doce. Ouve-se a letra, quase um relatório clínico de card...

Madeira “bate” o Estado… mas continua a correr atrás da dívida.

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[Quando refinanciar dívidas antigas com juros novos é vendido como milagre económico] A ideia de que a Madeira conseguiu “bater” o Estado nos juros, repita-se com o ar grave que os idiotas usam nestas alturas: bater o Estado nos juros, é, se não fosse triste, quase cómica. A política regional vive agora deste género de ficções orçamentais, inventadas para entreter a populaça e dar um sentido de grandeza ao que não passa de remendo, de operação banal, de gestão desesperada de um problema estrutural que ninguém quer enfrentar. A notícia, por si só, diz muito mais sobre o estado da política regional do que sobre qualquer suposta virtude da governação madeirense. A Madeira, como se sabe, vive pendurada nos subsídios da República e nos apoios europeus, afogada numa dívida que não controla e governada por um regime que há muito se especializou em transformar a necessidade em propaganda e a insolvência em feito de génio. Vamos aos factos, esses chatos que atrapalham a retórica. A operação em ...